domingo, 17 de março de 2013

A Força dos Sentidos - 1979


É sempre um momento muito especial  para um cinéfilo –detesto o termo, mas enfim- quando finalmente conseguimos um determinado filme que julgávamos perdido ou impossível de encontrar. As notícias que obtivera sobre a possível existência da(considerada) obra-prima de Garrett terminavam invariavelmente em um beco sem saída. A Cinemateca Brasileira tem uma cópia, mas segundo um amigo me confidenciou, sem uma parte da banda sonora, o que impede qualquer exibição em um Canal Brasil, por exemplo; a edição em VHS sequer fora comercializada nos anos 80; enfim, já me dera por vencido e desistira de um dia assisti-lo. Cheguei a escrever para um blogueiro e jornalista, que pelo comentário  postado sobre o filme conhecia e tinha uma cópia, mas nunca obtive a gentileza de nenhuma resposta à minha solicitação, ainda que fosse negativa. E eis que um dia desses aparece no Facebook um anúncio do diretor Claudio Cunha – que felizmente é amigo virtual - oferecendo os filmes que dirigiu e o filme do Jean Garret, que foi produzido por ele, estava ali no meio da chamada. Parecia um trote de sádico, mas não era: mensagem trocada, dinheiro enviado, e enfim o sonhado e ansiado filme diante de mim. Não tenho a pretensão de fazer uma elucubração crítica sobre ele.  O meu espaço virtual  é ameno e  trivial. Convencer um eventual leitor a se interessar pelo filme já me terá deixado feliz. Jean Garrett é para mim um dos melhores diretores brasileiros de todos os tempos. E depois de assistir a este filme só confirmei o pensamento, apesar de ainda continuar  achando que “A Mulher que Inventou o Amor” seja melhor. Só revendo-o para tirar a boa dúvida. Felizmente as obra da Boca do Lixo tem recebido mais atenção de alguns anos para cá. Mas sou testemunha de que nas minhas rodas de amigos cinéfilos quando toco em nomes de diretores como Garrett, Chico Cavalcanti, Tony Vieira, Fauzi Mansur ou outros, simplesmente zombam e debocham de mim. Lendo o maravilhoso “Mondo Macabro” de Pete Tombs, livro também que só consegui com muito esforço ( e mesmo assim em versão digital), achei interessante uma observação sobre esta questão de recepção crítica á obras que fogem do padrão cinéfilo “cinema de arte de qualidade” que predomina entre nós. Curiosamente vejo que esta é  uma tendência que predomina nos países de cinematografias periféricas. O comentário de Pete Tombs se referia ao cinema argentino, e caberia perfeitamente à realidade brasileira. Lá como cá cineastas que  não rezaram pela cartilha cinema de “qualidade” artística (diga-se passagem que os Hermanos fazem este tipo de cinema muito bem, ao contrário de nós )são menosprezados. Um dia desses conversando com amigos, por exemplo, um deles se referiu a mim como um amante do cinema argentino, o que despertou o interesse  de outro na mesa, mas quando citei os nomes de Vieyra, Armando Bó e outros, vi apenas uma cara incrédula: nenhum deles ele sabia da existência. Boa parte dos cinéfilos tem como parâmetros de qualidade filmes referendados pela crítica francesa dos anos 60, que tenham temática séria e adulta, que não tragam conteúdo erótico de mau gosto, e claro, que tenham interpretações excelentes dos atores, trilhas sonoras classudas , temáticas  preferencialmente de esquerda, de cunho social e otimistas. O sucesso do  recente filme francês “Os Intocáveis”, é um bom exemplo, creio. O cinema, enfim, enquanto arte esnobe, excelsa, afetada e para eleitos. O português Garrett trabalhou sempre dentro de uma linha de produção dirigida ao público popular, mais “baixo” possível, aqueles que só queriam mesmo ver mulher pelada gostosa, bater uma punheta e esquecer a vida miserável que levava nas grandes cidades ou pequenas.
A crítica mais comum feita à obra de Garrett seria de que seus os filmes eram pretenciosos e afetados – pela utilização de músicas clássica na trilha, e diálogos supostamente “ridículos e pedantes”. Um crítico famoso na época ironizou o fato do personagem escritor buscar refúgio em uma ilha sob a alegação de que isso era uma ideia impensável num país onde não existiria escritor profissional.  Gostaria de, aliás, de saber se este “crítico” comentou “A Menina do Lado” de Alberto Salvá, outro filme que gosto muito, e que também é sobre um escritor refugiado em uma ilha deserta. Dentro dessa lógica quase toda a  cinematografia mundial teria que ser eliminada da face da Terra por inverossimilhança. Seria divertido se não fosse grotesco a suposta observação. Para mim- que não sou crítico-  justamente o que me agrada na obra do diretor é esta tentativa de pretensão e elegância, sem perder, no entanto o foco no popular. “A Força dos Sentidos” é sofisticado sim, tem narrativa sinuosa, carregada de ambiguidade e sem nenhuma referência imediata á realidade nacional. A trama poderia se passar em qualquer lugar, pois ela pertence ao terreno do fantástico mais puro.
Meu gênero literário favorito sempre foi a literatura fantástica – de certa forma considero que  obra é  fantástica  em sua essência. Nada mais óbvio, portanto, que também me atraia o cinema de cunho fantástico em todas as suas variáveis. Uma pena que o gênero foi pouco praticado no país tanto no cinema quanto na literatura.  Garrett , um dos raros  cultores do gênero, dentro de um modelo bastante pessoal, muito distante de um Mojica, por exemplo. Surpreenderam-me, no filme, as evidentes semelhanças com obras do cinema mundial anteriores e posteriores: Os roteiristas – Garrett e Koszpeky – conheciam “Carnival of Souls”? Não acredito, mas tudo é possível; e  o que dizer de “Sexto sentido” e “Os Outros”, dois filmes marcantes recentes  que trazem igualmente similaridades curiosas com o nosso obscuro filme nacional? Uma crítica honesta publicada na época lembrou “Os Inocentes”, clássico inglês de Jack Clayton, o que faz sentido remotamente. O fato é que é, talvez ,o  filme mais impregnando pela atmosfera do fantástico em toda obra do diretor, e talvez de todos os filmes brasileiros do gênero. Nada do que se desenrola na tela, percebemos nas sequências iniciais, é real. O espectador é imediatamente convidado a mergulhar no terreno do fantasmagórico e do imaginário. Está claro, Garrett não esconde que há algo errado em toda a situação vivida pelo escritor. A estupenda fotografia de Carlos Reichenbach – que ele considerava a melhor que fez em toda a carreira como fotógrafo – acentua com planos maravilhosos o clima opressivo  e sombrio. Em suma: que bom, que esta obra pode ser apreciada novamente por todos. No site do diretor e ator Claudio Cunha o filme pode ser adquirido www.claudiocunhaproducoes.com.br

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