segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

El Inquisidor - 1975

Mais um ano que finda. O ultimo post do ano é coincidentemente sobre um filme argentino. Quando morava nos EUA, por falta do que fazer nas horas de folga, resolvi fazer meu próprio blog . Inicialmente a ideia era um blog musical, meio à moda do fantástico e extinto Loronix, mas a falta de conhecimentos sobre o mecanismo de postar discos me fez desistir. Voltei então à outra ideia: um blog despretensioso sobre cinema. Nada de críticas, apenas resenhas e observações sobre filmes ignorados ou desprezados pela crítica “oficial”. Acabara de assistir ao filme “Sangre de Virgenes” de Emilio Vieiyra, um filme de vampiros feito na Argentina, e diante da inexistência de material sobre ele na época- na net- , pensei com meus botões da blusa que eu usava: taí o filme para dar a largada. Voltei para o Brasil após 3 anos e continuei tocando o blog apenas para meu divertimento. Bons blogs de cinema na linha que aprecio existem, excelentes e bem escritos, mas continuo com o meu às pressas, e irritando muitos por não colocar links para baixar os filmes. Para estes repito o que já escrevi: existem toneladas de blogues apenas de comentários e acho ótimo quando leio uma resenha sobre um filme que não conhecia e esta me aguça a curiosidade. O trabalho de caçar o filme é um prazer e acho que o eventual e improvável leitor deveria praticar este esporte também. Mas deixemos de lorota. Relembrando então outro filme argentino. Na verdade uma coprodução peruana- argentina. Diretor Bernardo Arias, peruano, e de longa carreira como assistente de direção no país inca. Elenco dividido entre astros dos dois países. Confesso que não sei nada sobre o cinema peruano. Pelas pesquisas que realizei constato que filmes de gênero praticamente inexistiram por lá, como de resto em outros países da América latina. Os argentinos tiveram alguma coisa com o gênio louco Emilio Vieyra; no Brasil tivemos esparsas e interessantes tentativas para além do monstro Jose Mojica, nome este de ressonância universal hoje entre os cultores do filme B e extremo em todo o mundo. Este filme ainda espera pelo justo reconhecimento. A carreira dele foi atribulada e ganhou reputação de maldita. Só foi liberado pela censura na Argentina em 1984, e foi exibido pela primeira vez dois anos depois. A recepção foi a pior possível. O crítico do ”La Nacíon” o classificou como uma merda. Os produtores para tentar angariar o público mudaram o título para “El Fuego del Pecado” sugerindo uma película erótica, piorando ainda mais.
De qualquer maneira ganharia uma edição em VHS, o que o salvou do limbo. As cópias existentes tem origem dessa edição. Boa caçada, amigos( no emule ele existe). Não se trata de uma obra-prima do terror, mas é suficientemente interessante para merecer um lugar de destaque na história do cinema de gênero na América latina. A primeira parte do filme parece mais um bizarro programa de turismo sobre os lugares mais belos de Lima. Enquanto rola este programa mulheres vão sendo mortas de maneira horrível: queimadas vidas, depois de serem torturadas. Os responsáveis pelas mortes uma seita que se julgava a reencarnação do santo Ofício e caçava bruxas. Comandados por uma psiquiatra vingativa auxiliada por um ex-paciente psicopata e três ajudantes. Depois do início meio confuso a narrativa se concentra em um trio de guapas modelos argentinas passeando em Lima e a inevitável investigação policial. A seita comete um erro mortal e rapta as modelos. Paro aqui a sinopse, para não estragar o final, que é bem divertido e surreal. Um filme desequilibrado, mas singular e brutal. No bom elenco a venerável diva do cinema argentino Olga Zubarry, fazendo uma ponta, e a linda Elena Sedova, atriz argentina que sumiu na poeira do tempo( abandonou a carreira em 1987) que oferece as doses necessárias de “sleaze” e erotismo. As cenas de tortura são violentas: com certeza assustaram o Censor do regime, que deve ter imaginado que os militares não gostariam de se reconhecerem nelas.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Neither The Sea Nor the Sand - 1972

O clássico conto de terror inglês “A Pata do Macaco” de W.R .Jacobs narra a história de uma pata mágica de macaco que podia conceder até três pedidos. Uma mãe ao saber que o filho morrera durante uma tempestade em alto mar, pede então que ele volte à vida. O final é tenebroso: a tempestade uivando lá fora, os pais dentro da cabana, alguém (o filho morto?) bate à porta e o pai apavorado atira a pata no fogo fazendo o último desejo: que o filho desapareça. Este obscuro e quase esquecido filme inglês é uma variação do conto e muito mais: uma melancólica e lírica história de amor, que é também uma história de terror gótica e romântica, e com resquícios de um filme de zumbi. Foi o único longa-metragem dirigido por Fred Burnley, e o último também, pois viria a falecer pouco depois. Fez carreira na TV inglesa como diretor de episódios de séries e editor. Susan Hampshire, atriz respeitada no teatro e TV inglesa, é Anna. Para fugir de um casamento frustrante parte para uma viagem à ilha de Jersey onde vem a conhecer o melancólico Hugh(Michael Petrovitch). A amizade não demora muito a se transformar em amor: ela abandona o marido e decide permanece na ilha. Tudo estava lindo e maravilhoso, mas durante um passeio romântico à Escócia o amado morre tragicamente. No entanto na mesma noite ele reaparece miraculosamente. O casal regressa para casa, como se nada tivesse acontecido, mas logo se percebe que havia algo errado com Hugh e o idílio amoroso se transforma em terror.
Desse jeito até parece que é uma metáfora sobre um casamento que começa bem e termina mal, não? O título original é uma citação de um poema de Elizabeth Barrett Browning. As críticas ao filme que podem ser encontradas na rede em sua maior parte são reticentes. De minha parte achei um filme interessante por várias razões entre as quais a atmosfera melancólica da narrativa, onde a paisagem inglesa típica de brumas e névoas serve como perfeita moldura, e a boa interpretação da bela Susan Hampshire. Há um quê de história de amor louco que faria as delícias dos surrealistas. O filme guarda ainda alguma semelhança com o espanhol “La Llamada” que comentei aqui no blog há algum tempo. Já existe edição em DVD na civilização, mas infelizmente é um filme difícil de ser encontrado nos sites que ainda sobrevivem.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Tamango - 1958

Um filme que se perdeu na poeira do tempo e ainda espera por uma reavaliação. Banido e censurado quando exibido: França e EUA o proibiram. Saiu em VHS , mas não teve uma edição decente em DVD. Inspirado em um conto do francês romântico Prosper Merimée: No século XIX um navio negreiro holandês prepara-se para sua última viagem em direção a Cuba para vender escravos. O sonho do capitão é lucrar bastante com sua mercadoria e depois voltar para a Holanda e se casar com uma dama rica. Os escravos negociados com um rei africano, negro, ou melhor, trocados por barris de rum e fuzis. Uma cena que ,com certeza, vai chocar os politicamente corretos que julgam que a culpa da escravidão foi única e exclusiva dos malvados brancos. No navio leva uma amante escrava:a bela Aiche, interpretada por Dorothy Dandridge, umas grandes atrizes negras de Hollywood. Para o azar do capitão os escravos são indóceis e liderados por Tamango(Alex Crossan) logo planejam uma rebelião. Enquanto a tempestade não vem senhor e escrava se beijam e se atracam, em cenas calientes. A verdade é que o casal de protagonistas vivia um affair na vida real, daí talvez a verossimilhança e intensidade dessas cenas de amor. Elas chocaram os americanos, que até então proibiam amores inter-raciais no cinema. O infame código Hays estava no auge. Foi o primeiro beijo inter-racial nas telas, o que por si só já garantiria o valor histórico do filme.
Os franceses também não gostaram do filme, mas não pelas razões raciais, e proibiram a exibição nas colônias temendo que a rebelião dos escravos influenciasse os nativos. Sim, naquela época ainda existia o colonialismo. O diretor John Berry dirigiu um excelente noir “He Ran all the way” em 1951 e foi uma das vítimas da perseguição anticomunista nos EUA. Refugiou-se na França e nunca mais voltou para o país natal, diga-se de passagem. Sem dúvida este foi o melhor momento na sua filmografia europeia: um drama marítimo tenso e trágico, narrado sem maniqueísmos. O navio negreiro como o microcosmo do mundo: brancos e negros desgarrados nas águas selvagens do oceano vivendo o capítulo de uma guerra que a história mostrou que não acabou: a chaga infame da escravidão ainda queima. Um filme que realmente merece uma revisão, e uma oportunidade rara de ver Dorothy Dandrige como protagonista. Ela quase recusou o papel: não aceitava papeis de escrava ou empregada.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Terminal Island- 1973

Em um mundo dominado por machos tarados Stephanie Rothman foi umas raras diretoras a conseguir espaço no universo da exploitation nos anos 60 e 70. Começou graças a uma chance dada por Roger Corman. Para a New World dirigiu o interessante “The Velvet Vampire”; depois , segundo ela por razões financeiras, migrou para outra produtora, a Dimension Pictures, onde realizaria mais três filmes, um dos quais este que relembro. O tema prefigura o bem mais conhecido clássico B de John Carpenter “Escape from NY” em oito antes. O governo da Califórnia aboliu a pena de morte e passou a enviar os condenados para uma ilha isolada no Pacifico. O elenco é recheado de caras conhecidas para os amantes do filme B dos anos 60e 70 : Marta Kristen de “Perdidos no Espaço”, Phyllis Davis ("Sweet Sugar," "Beyond the Valley of the Dolls"), Roger E. Mosley ("The Mack," "Hit Man"), Clyde Ventura ("'Gatorbait," "Bury Me An Angel") Barbara Leigh ("Seven," "Junior Bonner"), Albert Cole ("The Incredible 2-Headed Transplant," "The Female Bunch), James Whitworth ("Planet of Dinosaurs," "The Candy Snatchers”) e o future Magnum P.I." Tom Selleck no papel de um medico. Alguns dos filmes citados inclusive lembrei aqui no blog.
A diretora procurou fugir dos estereótipos e clichês dos WIPs e outros gêneros exploitation :o filme poderia ser enquadrado também como um Blaxploitation, por exemplo. O início apresenta mais uma condenada ,Carmen, sendo enviada para a ilha e ao chegar descobre que os condenados estavam sob o comando de um psicopata: Bobby, e viviam em um regime organizado mas opressor. As únicas mulheres faziam todo o trabalho pesado e serviam como escravas sexuais. Havia, no entanto um bando dissidente e elas acabam raptadas e se alinham a eles. O que se segue é um violento combate entre os dois grupos pela supremacia. Houve quem o definisse como uma alegoria da guerra do Vietnam, uma leitura interessante, sem dúvida. Para os interessados informo que existe um torrent do filme no Pirate Bay. .

sábado, 8 de dezembro de 2012

Captive Women - 1952

Normalmente comento filmes que gostei muito no blog. Não é caso desse aqui , pouco mais que passável. No entanto apresenta itens que o tornam digno de uma lembrança. Trata-se, por exemplo, do primeiro filme que retrata um futuro pós-apocalíptico -os títulos alternativos do filme são 3000 AD e 1000 years from Now-; outro detalhe digno de nota para mim: foi a estreia na produção de Albert Zugsmith, um dos monstros sagrados do filme B como produtor ,diretor ocasional e ídolo do blog. Apesar de tantos méritos permanece quase inacessível: nunca ganhou edição em DVD, e poucas vezes foi exibido na TV americana. A única, e sofrível cópia disponível, está no Cinemageddon e veio de um VHS. O título sugere uma produção exploitation. E foi essa mesmo a intenção dos produtores quando o relançaram com este título que está na resenha. Pelo que li em uma entrevista dada por Albert Zugsmith foi ideia de Howard Hughes, proprietário da RKO, que julgou o título mais sugestivo e apelativo. Não adiantou muito: nenhum sucesso e o rápido caminho para o olvido quase completo mesmo tendo sido uma produção da gigante dos Bs, a RKO. Como curiosidade extra o fato de que toda a equipe, produtores e elenco, participaram do filme “The Man from Planet X” de Edgar Ulmer, realizado no ano anterior. Infelizmente este não aceitou dirigir “Captive Women”. O diretor de “Naked Dawn” e “Detour” era um gênio na arte de trabalhar com orçamentos exíguos e teria certamente realizado um filme mais interessante com o material.
Todos os filme que abordam o futuro, ainda mais os mais antigos, são naturalmente ótimo material para reflexões. A trama é ambientada em uma Nova York em ruínas depois de uma guerra nuclear. Três tribos dividem o terreno : Norms, Mutataes eos Upriver people. A mais hostilizada e marginalizada, os mutataes sobrevivem escondidos nos tuneis da cidade em ruínas. Alguém disse que a terceira guerra mundial será lutada com paus e pedras. E aqui é o que temos: os guerreiros do futuro regrediram aos tempos medievais e tem como armas apenas facas, arcos e flechas e pedras. Em termos religiosos tantos séculos depois e a religião cristã permaneceu a mesma, o que é espantoso. Não se vê negros em cena, o que faz supor que eles foram exterminados. Um filme , enfim, curioso e que merece uma edição decente num futuro próximo.

sábado, 24 de novembro de 2012

Ti Aspetterò All' Inferno -1960

Pensei em começar a resenha com um brado de excelente com ponto de exclamação e tudo. Mas me contive a tempo. O fato é que esse é o tipo de filme que nos deixa em um estado de embriaguez e felicidade depois de The end. Um problema com um filme assim tão bom: bate depois aquela falta coragem de revê-lo algum dia. Temo por uma futura decepção, não recuperar aquela sensação de empolgação que sentira na primeira vez que o vi. É o caso desse filme: certamente vou evitá-lo por algum tempo para fruir a intensidade da satisfação que tive ao assisti-lo. O cinema Italiano viveu no pós-guerra uma explosão desenfreada e espetacular de criatividade: todos os gêneros foram reinventados e influenciaram todo o cinema mundial, e até o americano teve que se curvar também. Este filme dirigido por Piero Regnoli é apenas mais um bom exemplo desse período de riqueza extrema. Um thriller com toques de filme noir americano e terror. Um crossover original na época. Três homens roubam uma fortuna em diamantes e buscam refúgio em um local isolado. Durante a fuga através de um pântano dois deles se desentendem e um morre afogado na areia movediça após ser espancado. Walter(John Drew Barrymore) e Al (Massimo Serato) buscam refúgio em uma casa isolada esperando que as coisas se acalmassem. No entanto o surgimento de uma mulher, que Al conhecera na cidadezinha,instala um clima de animosidade entre os dois bandidos. Paralelamente à tensão sexual e ao mistério que envolve Danielle (Eva Bartok) Walter, violento e histérico, passa a ser assombrado pelo suposto fantasma de Sam. Al, por sua vez, mais calmo e classudo, o oposto do companheiro, havia planejado o golpe, sonha apenas em fugir com sua parte do roubo e levar a moça misteriosa com ele. Qualidades de sobra do filme: boa atmosfera; perfis psicológicos dos personagens bem definidos e com nuances para além dos maniqueísmos, entre outras. O clima de terror é delineado apostando na sugestão e na ambiguidade, longe dos efeitos fáceis que os italianos abusariam nas produções de gênero.
Uma observação final: Boa parte dos filmes de hoje abdicaram do risco: chegam mastigadinhos, quase sempre com tramas simplórias e previsíveis: regurgitam cinco ou seis situações ad nauseam. Fico lembrando do caso narrado por Buñuel em sua autobiografia quando dizia que ele e um amigo montaram uma espécie de gráfico com todas as situações de um filme americano e com isso podiam adivinhar a trama de qualquer filme logo na primeira sequência. Este é de um tempo em que assistir a um filme era uma viagem ao desconhecido, e onde o gráfico de Buñuel seria ineficaz.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

The Great Texas Dynamite Chase -1976

Um precursor de Thelma e Louise? De fato, os dois filmes tem mais pontos em comum do que a coincidência, e não duvido que o roteirista do filme classe A de Ridley Scott tenha visto esse pequeno filme B. Naquele a pretensão pseudo feminista, nesse a insolência e a irreverência quase inconsequente. Com qual você ficaria, leitor imaginário? Eu fico com o segundo, óbvio. Este espaço é afinal de contas dedicado aos filmes perdidos, vagabundos, Bs, fuleiros e afins. Até gosto de algumas coisas de Ridley Scott ( “Blade Runner”, foi um marco para mim nos anos oitenta) e nem seria o caso de compará-los. Mas não resisto. O filme de Scott já foi realizado sob a égide, ou a praga, do politicamente correto. O filme B dirigido por Michael Pressman – com produção de Roger Corman - passa longe dessas questões e chocaria com certeza a horda que preconiza os bons e edificantes bons sentimentos. O meu cantinho é também uma espécie de pré-PC. Inconscientemente ou não talvez por isso procure evitar filmes recentes, ainda que não deixe de acompanhar o cinema contemporâneo. Mas isso é outra história. Para nos brasileiros o filme ainda reserva uma piadinha sacana após o The End quando o destino das personagens é elucidado. Mas estou adiantando. De que trata essa joia dos drive-ins dos anos setenta? Se já citei o filme de Ridley Scott está claro que o filme trata de duas garotas bandoleiras: Candy(Claudia Jennings) e Ellie Jo (Jocelyn Jones). Candy sai da prisão e a primeiro ato é entrar num banco, acender uma banana de dinamite e cometer um assalto; Ellie Jo, entediada com a vida que levava - funcionária relapsa do banco assaltado - ajuda a até então desconhecida bandida e entra de cabeça na vida errante de assaltos, tiros , escaramuças e loucas escapadas.
O cenário onde trafegam é o interior do Texas :pequenas cidades , isoladas e quase paradas no tempo , algumas sonhando com os tempos da confederação sulista. Bonny e Clyde, Bonnie Parker Story, Boxcar Bertha, The Getaway, Jesse James. Billy the Kid, Butch Cassidy e Sundance Kid e outros de filmes e nomes quase mitológicos que imortalizaram a figura romântica do bandoleiro livre e desesperado. Aqui o espectador não tem como não torcer para o sucesso das mocinhas.O final é sacana e irônico e, certamente ,impossível hoje. Lembrar este filme é uma boa desculpa para falar um pouquinho de Claudia Jennings, “Queen of the Drive-Ins”: ex-playmate nos anos 70, participou de 27 filmes e faleceu tragicamente em um acidente automobilístico com apenas 29 anos. Era mesmo uma gata, mas se não tivesse morrido é quase certo que não teria tido um futuro promissor: na altura do filme que comento já estava mergulhada de cabeça nas drogas e se revelava uma figura cada vez mais difícil de lidar nos estúdios. Uma pena, mas o que é importa é que deixou sua marca nesse e em outros ótimos filmes na curta carreira.

sábado, 10 de novembro de 2012

La Llamada - 1965



Olhando uma lista de filmes participantes do festival de cinema fantástico  Sitges de 1968, dias atrás, me chamou a atenção  o nome desse filme, para mim desconhecido até então. Meu amigo Francisco Rocha, do ótimo blog My One Thousand Movies, está organizando uma excepcional retrospectiva do festival ano a ano e me disse que não conhecia  também esse filme, e não tendo- o  encontrando não pode inclui-lo. A minha busca parecia fadada ao fracasso, até que descobri no Cinemageddon uma versão do filme com o título inglês de “Sweet Sound of Death”, que poderia ser traduzido como o doce som da morte. Um título bem mais retórico e poético que o seco original espanhol, sem dúvida. Não se trata, no entanto de uma coprodução  Estados Unidos/ Espanha comum nos anos 60 e 70. Os distribuidores americanos compravam produções europeias  e até argentinas, por exemplo, obscuras, e depois as dublavam, trocavam os nomes originais dos atores, e lançavam como filmes americanos. A prática gerava, no entanto vários problemas e o pior deles - que ocorre nesse filme -, cortes  por razões de censura ou às vezes simplesmente por  metragem.  Foi o caso aqui: a edição americana foi cortada em 10 minutos, sem nenhuma razão lógica, e diálogos alterados.  Felizmente pouco depois obtive a versão com as cenas cortadas e os diálogos originais em espanhol graças ao velho e bom E-mule e pude enfim ter exata noção das qualidades do filme. Confesso que com os cortes o filme me decepcionara um pouco, principalmente nos momentos finais. E o corte de 10 minutos era justamente nesse ponto do filme. Vá lá entender a cabeça do distribuidor americano da época.  Um filme que logo após a exibição submergiu na obscuridade quase absoluta, sendo resgatado  há pouco tempo graças a alguns  cinéfilos espanhóis.  Um filme deslocado: o gênero terror teve grande voga no país, mas só a partir de final da década de sessenta e nos anos setenta, sobretudo  com o gigante Paul Naschy. O diretor Javier Setó, catalão, deixou 26 filmes  antes de falecer prematuramente em 1969 aos cinquenta anos. E sem lograr um reconhecimento da crítica. Produção que mesmo para os padrões locais foi de segunda linha: B, portanto. Para finalizar as filmagens o ator Emilio Gutierrez Caba, contou em entrevista que teve que emprestar dinheiro do próprio bolso aos produtores. O filme tem início e o espectador parece que estará  diante de  apenas outra história de influências neorrealistas ou do cinema inglês da época:  atmosfera de tons melancólicos  e lúgubres. Um casal apaixonado: Pablo (Emilio Gutierrez), estudante, e Dominique( a polonesa Danyk Zurakowska), francesa. O fantástico  só irrompe sutilmente após o telefonema que o rapaz recebe da amada. Ela tinha viajado  para a casa dos pais, na França, passar o natal. Um acidente de aviação  e o nome dela fora incluída lista de mortos. O reencontro após o telefonema e  ela lhe diz de maneira casual que estava morta. Claro, que ele recebe a notícia como uma brincadeira. Filmada em uma Madrid permanentemente envolta em brumas, espectral, refletindo o interior melancólico  dos personagens. À medida que a narrativa de  desenvolve mais e mais Pablo enreda-se em um universo paralelo, onde as fronteiras entre a vida e morte adquirem outra relevância e significado. Para os familiarizados com o cinema fantástico B dos anos sessenta é evidente a semelhança  com a obra-prima “Carnival of Souls” de 1962, do americano Herk Harvey. Claro, que apenas  coincidências, pois seria pouco provável que Setó tenha assistido ao filme americano. O fato é que trata-se de um filme que navegava contra a corrente dominante do gênero terror da época:basta lembrar nos filmes góticos italianos ou da Hammer. Daí seu eterno fascínio. Como eu já informei ele pode ser encontrado no E-Mule,basta alguma paciência. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Leonardo Favio -R.I.P

Um gigante do cinema argentino e mundial que se foi hoje. Resenhei há tempos sua obra-prima aqui nesse espaço: Nazareno Cruz y El Lobo.

sábado, 20 de outubro de 2012

Um bate papo com Hytagiba Carneiro

Uma prosa com um amigo cinéfilo de São Paulo e veio a dica :um dos atores fetiches e amigo de Tony Vieira residia aqui pertinho de BH, em Contagem. Graças ao facebook o contato foi estabelecido, pedido de amizade aceito e a sugestão de uma possível entrevista para o blog igualmente aceita sem problemas.
Hytagiba Carneiro, o Gibão é um colosso, monumento cultural de Contagem, uma figuraça como não se faz mais: quase um dinossauro. Conheceu Tony Vieira ainda garoto em Contagem e com ele trabalhou em quatro filmes, além de ter trabalhado com diretores como Fauzi Mansur, Clery Cunha, Tião Valadares e, aqui em BH com o cineasta Paulo Leite Soares. É muita história boa que ele tem para contar, com sua fala caudalosa e vibrante, que só uma força abençoada da natureza é capaz.

Giba, fale um pouco sobre sua vida antes do cinema.
Estou com 82 anos, então sou praticamente uma história viva de Contagem. Nasci em Capitólio, Minas Gerais. De lá cheguei aqui em Contagem na década de 40, e trabalhei como mecânico, estudei no SENAI e fui evoluindo . Toda a minha vida gostei muito de ler bons livros. Hoje as pessoas conversam comigo e acham que sou um cara que tem faculdade: eu tenho a faculdade do mundo. Então eu escrevo certas palavras e a pessoa tem que consultar o dicionário. Eu gosto muito de ler a coluna do Eduardo Almeida Reis , no jornal Estado de Minas, e ele usa palavras que eu gosto de usar também. E cheguei a um ponto que os engenheiros perguntavam no trabalho : “quem é este rapaz moreno comunicativo e falante”. E fui assim , crescendo, estudando e casei, tive duas filhas, Rosana e Soraia, e vim morar em Contagem. Trabalhava na Itaú, a antiga fábrica de cimentos, onde hoje está o ItaúPower. E para minha alegria e felicidade fizeram o tombamento das chaminés, e quando as vejo a saudade bate e a gente volta no tempo.

Como surgiram  Tony Vieira e o cinema em sua vida?
O cinema surgiu quando me aposentei aos 40 anos e me separei também. Na década de 60 o Tony chegou de Dores de Indaiá e foi morar no alojamento da Itaú, nessa mesma época eu trabalhava como mecânico. Ele era um rapazinho. Fazíamos teatro, meu irmão José Sebastião Carneiro Filho ( já falecido) promovia shows, e eu falante como sempre – falo mais que papagaio, eu era o apresentador. Apresentei Nelson Ned, Agnaldo Timóteo ,Alfinete e outros. Na Itaú tinha uma área de lazer onde aconteciam shows e espetáculos.

O Tony participava disso?
Não, ele não fazia nada. Ele começou a trabalhar com meu pai, que era chefe de obra, empurrando carrinho, e um dia chegou pro meu irmão, que tinha o apelido de Zezé Cabeleira e disse:” não dá para mexer com isso não, minha vida é outra, quero ser artista, não quero ser servente não”. E ele começou a fazer trabalhos no circo e teatro, nas festas interpretando alguns personagens e ele logo se destacou. E meu irmão o levou para trabalhar na TV Itacolomi com o Otávio Cardoso, fez o teste e passou. Depois o Moacir Franco veio fazer um show em BH e gostou dele e o levou para São Paulo. Ai ele foi trabalhar na TV Excelsior, conheceu o Heitor Gaiotti, trabalhou com o Mazzaropi e conheceu o Edward Freund que lhe deu a primeira chance no cinema. E nessa mesma época ele recebeu um convite da Globo para fazer uma novela .Ele participou e teve uma grande repercussão em Minas, todo mundo foi assistir a novela “A Grande Viagem”. Depois ele conheceu o comendador Francisco A.Soares, que estava começando a investir no cinema. E ele o convidou para dirigir um filme. E já em 1974 ele teve o grande estouro de bilheteria com “A Filha do padre” e deslanchou. Ele, a Claudette e o Heitor Gaiotti, formaram uma equipe.

E quando você foi trabalhar com o Tony? Em 1977 fui trabalhar em “Amantes de um Canalha”. Eu estava aqui em Contagem e ele me convidou. Tony esteve aqui filmando “Traídos pelo desejo” em 1976 e chegou para mim e disse: “Giba, se prepare que vou te levar pro cinema”.

Você chegou a participar de “Traídos pelo desejo”? Parece-me que eu fiz uma pontinha numa cena em que estamos no alto de um morro e eu entrego um rifle para ele, não me lembro bem . Talvez esteja confundindo com uma cena de “Os Violentadores”.(risos)

Qual foi seu papel em “Amantes de um Canalha”?
Eu interpretava um bandido. Eu participei de tudo, fazia fotos, ajudava na produção.

E como era a produção do filme?
Não era precária já que tinha o dinheiro do comendador. Todo o equipamento de filmagem da Boca era de primeira geração importado da Itália. Ele foi o primeiro a usar grua e três câmeras em cena.

Como Tony trabalhava no set de filmagem?
Ele era muito bom, muito atencioso, cuidava de todos os detalhes. Ele montava toda a cena, sempre com o Rajá que era seu braço direito. Ele chegava para um ator, explicava todos os detalhes. Teve uma cena em que eu levaria um tiro, por exemplo, e no final ele dizia : “vai com Deus”. Na verdade eu é que atrapalhava muito ele.

Como assim?
Porque eu gostava muito de fotografar e ficava tirando foto das cenas, atrás das câmeras e ele ficava bravo e chamava o Índio Lopes, mandava parar tudo e gritava: “Pô, tira esse pedaço de arrombado daqui”. Ele gostava de usar esses termos engraçados. Ele era muito brincalhão, mas na hora de trabalhar era sério, não brincava com as atrizes durante as filmagens.

Quanto tempo durou as filmagens de “Amantes de um canalha”?
Geralmente as filmagens duravam de 30 a 40 dias. Os títulos eram pesados para atrair público mesmo. O cara entrava no cinema, via o filme e não tinha nada daquilo anunciado e ficava puto.

Você se recorda de fatos engraçados durante as filmagens?
Ah, tem muitos. Um dia, por exemplo, no momento de descanso ele se sentou debaixo de uma árvore para descansar e eu cheguei com minha câmera super 8 e fiquei filmando ele. Ele fechou a cara, chamou o Índio , mais uma vez ,e gritou: “pô, leva esse Giba embora, ele não me deixa nem mijar sossegado”. Ele estava urinando e eu filmei.

Você tem este material ainda?
Devo ter uns rolos de super 8, mas não sei mais as condições para se fazer uma cópia. Tenho muito material feito por trás das câmeras: além do Tony , eu era o único ele deixava fotografar as atrizes nuas e então eu fazia uns nus artísticos.

Aconteceram outros casos engraçados?
Sim, em uma das cenas eu estava à beira de uma piscina e tinha um ator falando com outro, em um prédio distante. Éramos eu e outro ator, o Hely Antônio, e eu ficava igual você está agora ai só balançando a cabeça e concordando: fazia uma hagá, coçava a cabeça e etc., truques que o Gaiotti me ensinava – e quando a noite chegou toda a equipe foi para um restaurante. O Iragildo Mariano, que era o diretor de produção subiu no palco e anunciou o elenco. Chamava e apresentava um por um. E depois de apresentar o Hely, que era mineiro também, anunciou que tinha o prazer de chamar o Hytagiba Carneiro, a vaca de presépio! E eu subi, e todo mundo dando gargalhadas, e eu perguntei por que me chamou daquilo e ele respondeu que tinha ficado me observando na cena da beira da piscina e viu que eu só ficava balançando a cabeça feito uma vaca de presépio (risos). E teve outra mais engraçada ainda.

Outra? E como foi?
Na noite de estreia de gala do filme, no Cine Brasil, eu cheguei de taxi e era cedo ainda, e não vi ninguém do elenco na porta. Fiquei andando para lá e para cá e ninguém chegava e então fui até a bilheteria e comprei um ingresso. E daí a pouco o Tony chegou com o Gaiotti e o resto da turma . E quando me viram com o ingresso na mão começaram a rir e me chamaram de mineiro otário porque tinha comprado ingresso para assistir a estreia do próprio filme.

E o Gaiotti, era daquele jeito mesmo como nos filmes?
Ele era aquilo mesmo: muito camarada e brincalhão. Gaiotti me ensinou um monte de truques para não ficar feito um boneco em cena. E agora eu fico vendo uns filmes americanos e você vê muito cara boneco que fica lá igual vaca de presépio só balançando a cabeça. Isso acontece no cinema nacional e no cinema americano também.

Depois veio “Os Violentadores” em 1978...
Pois é agora tá todo mundo atrás desse filme. Ninguém tem. Agora em Goiás o José Carlos conseguiu uma cópia e está restaurando. Em São Paulo tem o Fábio Vellozo , tem o Rodrigo Pereira, que está escrevendo um livro sobre o Tony e precisa assisti-lo para ter uma noção mais abrangente, e está esperando pelo filme. Então tem esses dois projetos – a restauração e o livro – em andamento sobre o Tony.

E em  “O Último Cão de guerra”, teve muita história pitoresca nas filmagens também? Neste sou um dos atores principais do filme: eu carrego a história. Faço um militar durão. Sempre fiz bem esse tipo. O pessoal gostava. Quanto a histórias pitorescas, o exército estava ajudando nas filmagens. Filmavámos em Cumbica ,onde hoje é o aeroporto e lá era área do exército. O comendador comprou um jeep e doou para eles. Tudo estava tudo ótimo, mas fizeram umas fotos eróticas tidas como obscenas na época retratando uma atriz com um fuzil entre as pernas abertas e cobrindo a vagina. As fotos saíram em uma revista e a mídia fez um estardalhaço com as fotos e o exército devolveu o jeep e mandou apreender a revista.

Você também trabalhou com outros diretores além do Tony, como o Fauzi Mansur. Como foi? Sim, eu trabalhei com o Fauzi Mansur em “Sexo animal” em 1983. Eu já o conhecia da Boca (do Lixo) e ele gostava do meu tipo e me convidou. Todos gostavam do personagem que eu fazia: aquele tipo durão, militar.

Você frequentava a Boca ?
Sim, claro. Quando ia a São Paulo filmar ficava hospedado na casa do Tony uns 30 dias,e quando ele vinha a Minas ficava lá em casa. Eu conhecia a turma toda da Boca. Tomava um cafezinho no Soberano ou no Ferreira. Era aquela cachaça, né? Todos aqueles atores e atrizes passavam por lá, o bate-papo rolava, era uma família. Infelizmente o Collor mutilou a acabou com o cinema nacional.

Em sua opinião foi ele o responsável maior pelo fim da Boca?
Ah sem dúvida, foi ele. Mas o Tony não dependia de verba da Embrafilme para fazer seus filmes. Os filmes davam retorno e tinha o apoio do comendador. Era ao lado do Cardoso, do Cavalcanti e do Mojica, o cara mais forte na Boca.

Você trabalhou com o Clery Cunha também, certo?
Sim, contracenei com o Roberto Bonfim em o “Rei da Boca”, onde eu fazia o papel de um bandido logo no começo do filme. O David Cardoso depois me convidou para trabalhar em um filme dele, mas o Tony não permitiu. E então veio o Tião Valadares.

Você então fez o “Cangaceiro do diabo” em 1980...
O Tião era um camelô, vendia joias, anéis e outras bugigangas na rodoviária. Era um sujeito inteligente, escreveu a história do filme e os produtores gostaram dela e investiram. Ele chamou o Rajá para dar uma força.Mais uma vez interpretei um militar.

É verdade o boato que o Rajá é quem dirigiu o filme?
Sim, o Rajá foi quem dirigiu: o Tião só assinou a direção.

E ele não se importou com isso e aceitou sem reclamar?
Lógico, ele estava sendo pago para isso e tinha muita amizade com o Tião. Nunca pude ver o filme pronto e só agora terei essa honra graças a essa cópia que você me conseguiu.

E o trabalho em “Dois Homens para Matar” de Paulo Leite Soares?
Fiz aqui em BH, e também não pude ver. São vários filmes que só estou tendo a satisfação de ver agora.

Você trabalhou em “Calibre 12” um dos últimos filmes de Tony, em 1988, certo?
Exato, tive uma grande participação nele. Foi um fracasso, infelizmente, ele já estava em decadência. Um cantor sertanejo que investiu: gostou a história. Eu faço o papel de um bandido na fazenda e tem uma cena em que Tony chamou uma atriz e ela tinha que chorar porque o filho estava sendo maltratado e ela não estava conseguindo. E eu atrás da câmera comecei a chorar ela ficou comovida vendo minhas lágrimas e conseguiu.

Tony gostava de cinema, tinha hábito de assistir a muitos filmes?
Ele gostava muito de faroeste italiano , filmes de ação e policiais. Não era muito de ler: gostava mesmo era de assistir um filme.

Ele sabia alguma arte-marcial, usava dublês em cena?
Ninguém usava dublê, aliás, todos gostavam de fazer as cenas perigosas. Claro que houve colega que se machucou: o Profeta , por exemplo chegou a perder um olho, por causa de uma explosão em outro filme, que não foi dirigido por Tony. O Tony era um acrobata, trabalhou em circo antes de ficar famoso, e então sabia dar aquelas cambalhotas e simulava as lutas todas muito bem.

Tony se importava com as críticas ruins ? Ele não se importava. Guardava tudo que saía sobre ele, recortes de jornais, revistas e então ele sabia das críticas todas. Mas ele se achava o bom da Boca, e era muito admirado no Nordeste, e então não ligava. Para mim ele foi realmente um dos maiores diretores do cinema nacional. Ele gostava de dizer que fazer cinema era como estar dentro de casa, e bastava ser natural.

domingo, 14 de outubro de 2012

Anjos do Sexo - 1981

O cinema brasileiro pode não ser pródigo em incursões pelos filmes de gênero, como terror ou fantástico, mas seguramente tem a sua história povoada por cineastas fantasmas, ou melhor, dizendo , diretores que dirigiram vários filmes e sumiram do mapa: viraram –metaforicamente- zumbis e assombrações. Levy (ou Levi) Salgado é um desses fantasmas. Sinceramente adoraria poder dar mais informações sobre ele além das que pude catar aqui e ali: fez mais de uma dezena de filmes nos anos 80, quatro deles em parceria com a atriz Lady Francisco, e que faleceu em 1990,com 41 anos. Não mais que isso pude apurar. Ao que tudo indica construiu a carreira independente de qualquer apoio oficial ou mesmo de produtores da Boca do Lixo. Aliás, trata-se de uma produção carioca, mais afim talvez do chamado Beco da Fome, que ainda aguarda sua história. Como de praxe boa parte dos filmes de Levy se perdeu e mesmo os que são possíveis de encontrar depois de muito esforço estão em cópias ruins. As esparsas referências à sua obra o classificam como um “picareta”. Considerando que o mesmo adjetivo já foi utilizado para classificar quase todos os cineastas que ousaram realizar filmes populares e distantes da estética do bom gosto, o adjetivo pode significar ironicamente alguém interessante. O filme que relembro aqui foi um dos citados que a atriz Lady Francisco produziu. E este tem um atrativo extra: ela assina a codireção. Por que razão? Teria tenha brigado com o diretor e o despediu antes das filmagens terminarem? Não sei. Quem souber maiores informações me enviem, por favor. Considerando-se que mulheres na direção é caso raro num país tradicionalmente machista é digno de nota o fato. No elenco à exceção da produtora, diretora e atriz principal, nenhum nome conhecido. Nomes como Dayse Done, Nice Aires , Lia Farrel ( essa virou professora de teatro no Rio e é mãe de atores), Carlos Henrique Santos e Joel Grijó (teve uma carreira profissional atuando em seis filmes) entre outros despontaram para o anonimato depois desse filme, pelo visto. Se não foi um produto da Boca seguramente emulava a estética paulista na temática e na concepção com tempero rodriguiano. A trama é restrita ao núcleo familiar de Lourdes(Lady Francisco) uma madame, que vive em uma mansão isolada. O marido a abandonou e a deixou com um filho meio idiota, duas filhas sacanas, um sobrinho e um casal de criados idosos, além da Vilma, filha desses. A história podia ser meio como no poema: fulana que ama fulano, que ama sicrana que ama fulana e tem Carlinhos que come todos, mas não ama ninguém, e no meio a madame carente que para se acalmar dos ataques de histeria recebe tratamento especial do sobrinho, sob as vistas dos filhos. No bolo tem incesto, lesbianismo, homossexualismo, pedofilia, enfim um catálogo quase completo de taras. Tudo muito normal como em qualquer família rica: perversões e desejos saindo dos armários e dando vazão nas camas, estrebarias e cascatas. O que move nosso anti-herói Carlinhos é o ódio e a rejeição, que acaba por levá-lo a matar a amante Vilma, quando ela anuncia que ele será papai. A trama que seguia lenta resumindo-se em encontros sexuais variados, quase todos protagonizados pelo rapaz, ganha contornos mais sombrios e violentos até culminar em um fim irônico e simbólico. Tudo está no seu lugar, graças a Deus, como diria a canção. Lady Francisco, canastrona, faz caras e bocas para interpretar a coroa sexualmente histérica e sonsa mas superprotetora da prole. O resto do elenco consegue ser pior no quesito interpretação, o que é afinal de contas , normal em filmes dessa lavra exploitation tupiniquim. Apesar disso o filme convence e merece uma redescoberta pelo tentativa de fundir violência, terror e erotismo. Ele pode ser encontrado em cópia razoável no site “Eu gosto de filmes brasileiros”.

domingo, 7 de outubro de 2012

Toi, le Venin - 1958

Se tivesse saco e paciência bem que gostaria de escrever algumas listas. Uma delas que sempre imagino seria dos melhores inícios da história do cinema, ou melhor, meus favoritos e marcantes Na falta dessa lista, talvez um texto sobre eles. O hábito de ver muitos filmes gera certa impaciência vez ou outra: me pego às vezes tentando assistir, um, dois, três filmes, e largando-os logo nas primeiras sequências numa dispersão ansiosa irritante. Não foi caso desse filme francês que já há algum tempo descansava aqui no HD e esperava pacientemente sua hora. A presença de Marina Vlady já era suficiente para despertar a curiosidade. Mas logo na primeira sequência ele me cativou: sem dúvida um dos melhores e mais sensuais inícios que tive a oportunidade de assistir. Um sujeito perambulando por uma praia ao cair da tarde, um cadillac branco dirigido por uma mulher (da qual não se consegue ver o rosto ), que lhe oferece uma carona até Nice. Sim, o cenário é o mesmo imortalizado pela câmera de Jacques Demy. Porém a motorista misteriosa desvia do caminho, estaciona num local isolado, e para a felicidade do moço, se desnuda e se deixa possuir. Uma noite que prometia ser inesquecível e que logo se transforma em um pesadelo: a desconhecida após fazer amor, saca uma pistola, expulsa o rapaz e ainda tenta atropelá-lo. Felizmente - dependendo do ponto de vista - o nosso herói, Pierre, consegue anotar a placa do carro e resolve descobrir a identidade da maluca. A investigação leva-o a uma mansão habitada por duas irmãs: Eva(Marina Vlady), presa a uma cadeira de rodas, e Helene (Odile Versois). Ambas belíssimas , sedutoras e enigmáticas. Diga-se de passagem, que as duas atrizes eram irmãs na vida real, e a primeira casada na época com o diretor Robert Hossein, que interpreta o personagem principal. Para continuar o clima familiar a trilha(sensacional) foi assinada pelo pai do diretor, André Hossein, e a assistência de direção esteve a cargo de outra irmã das atrizes. O filme foi realizado durante o nascimento do furacão da nouvelle vague, mas passou longe do movimento. Um filme que não envelheceu e continua a seduzir o espectador com sua aura de sensualidade e clima “noir”.
A trama lembra em alguns pontos outro filme “à gauche” da nouvelle vague: “Les Felins” de René Clément, com Alain Delon e Jane Fonda, realizado em 1964. Em ambos os filmes temos homens indecisos e tolos que se tornam joguetes nas mãos de mulheres diabólicas e ambíguas, mas sempre fascinantes e sedutoras: sereias de canto venenoso e mortal. O diretor Robert Hossein nunca obteve muito reconhecimento por parte da crítica, e anos 70, se afastou do cinema e foi se dedicar ao teatro, onde se tornou um dos monstros sagrados e ganhou o respeito merecido. A história foi adaptada de um romance policial de Frédéric Dard, que colaborou na confecção do roteiro juntamente com o diretor. O filme pode ser baixado via torrent, em boa cópia: http://bt.eutorrents.me/index.php?page=torrent-details&id=bea76a5f2212799e5f7f34f2fa064ca4647785fb

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Febre do Sexo - 1981

Tirando alguns fanáticos e jovens admiradores paulistas é difícil achar alguém que defenda Rubens da Silva Prado, ou Alex Prado, como muitas vezes assinava. Para começar praticou um subgênero que tem prestígio zero á esquerda junto à crítica nacional, que é o western- feijoada. Depois enveredou pelo pornô, que “goza” (ops) ainda de menos favor da crítica. Sim, vou bater na mesma tecla que outros blogueiros e críticos mais abertos já informaram e é assunto requentado: existiu um faroeste nacional, o western-feijoada, como foi carinhosamente (?) batizado. É engraçado, pois quando criança cheguei a assistir alguns faroestes nacionais. Eu e todos dentro do cinema não ligavam para a procedência deles. Se eram americanos, italianos ou de outro país não importava muito. O que contava eram tiros, pancadaria e os vilões estrebuchando sob o sol escaldante antes do the end redentor. Nosso ciclo de cangaço- bem mais extenso - não escapou de utilizar os clichês do western tradicional, essa que é verdade. O filme de Alex Prado é original em relação a esse servilismo aos estereótipos e modelos ítalo-americanos do gênero. Ele poderia perfeitamente ter enfiado seus personagens nas roupas coloridas do cangaço e transformar a saga de Gregório em mais uma história de sabor nordestino. Seria fácil, mas ele evitou o óbvio. E realizou um faroeste-feijoada original. O herói de Rubens Prado(interpretado pelo próprio) move-se numa terra fantasmagórica, imaginária, povoada pelos vilões e mocinhas dos filmes de ação e faroestes: a terra do cinema. A cor local, não é ignorada, porém. Gregório chega numa bodega vagabunda, por exemplo, e pede uma cachaça, e ouvimos mencionarem onças na região. O detalhe dissionante é o gorro que ele veste igual aos caçadores de pele de castor muito comuns em faroestes americanos. A versão original de 1981 não obteve pelo visto muita repercussão. Ao que consta foi exibido no Rio e São Paulo na estreia, nos cines Premier e Pathê, e depois desapareceu. Mas ressurgiria miraculosamente alguns anos depois com outro nome e com cenas extras (cerca de 11 minutos) de sexo explícito. Uma coisa de louco realmente. Essa versão: “Sexo erótico na ilha do gavião” é encontrável sem muitas dificuldades na net ainda e já mereceu resenhas em alguns blogs. A curiosidade em conhecer o filme sem os enxertos absurdos me levou a caçá-lo e finalmente encontrei-o em sua versão original.
A cópia veio com legendas em espanhol e imagens sofríveis. Pelo visto Prado, assim como Tony Vieira e outros diretores e produtores venderam seus filmes para o mercado VHS da América latina e até para países europeus, sem contar os EUA. Vi, por exemplo, “Prisioneiras da Selva Amazônica” de Conrado Sanchez, dublado em inglês e com legendas em grego! A versão existente de “O último Cão de Guerra” de Tony Vieira, é argentina, com legendas em espanhol. Lembro ainda que assisti recentemente o curioso “O Sósia da Morte” dublado em espanhol. É desse jeito que nosso cinema foi e (vai) aos trancos e barrancos, e dá raiva pensar em quantas obras estão praticamente perdidas. O próprio Prado tem vários de seus filmes inéditos em DVD ou VHS ainda. O pistoleiro vingador Gregório foi personagem recorrente em várias obras dele. E nesse filme, com um título que sugere um drama erótico mais que um faroeste brutal, ele está em busca da esposa Maria(Helena Volpi) que foi raptada por um bandido chamado Gavião. Antes de atingir este objetivo a saga de Gregório é uma sucessão surreal de pancadarias, tiros e mortes violentas. Logo no início ele resgata uma moça chamada Helena de um estupro em vias de ser consumado por um dos homens do bando de Gavião. Resgatada a donzela, ele vai catando outros infelizes pelo caminho, homens e mulheres que fugiam da fúria do vilão. No entanto todos que o seguem à exceção de Helena acabam por serem mortos em confrontos com os bandidos. Hilário e grotesco. Os momentos de erotismo são fornecidos pela geografia rural: se tem rio ou cascata as mocinhas não hesitam em tirar os farrapos e mergulharem no rio, nuas e felizes. Claro, que em praticamente todos os momentos que isso ocorre aparece algum devasso do bando de Gavião e tenta tirar uma casquinha das moças, e então toma sarrafo de Gregório, sempre por perto. Em um dessas escaramuças surge um bandido, outro mais, começa a troca de tiros e sopapos e ao final resta um bando de mulheres mortas boiando na água. Demente. O vilão supremo Gavião(Paul Morrison) é um místico que escraviza mulheres para trabalhar em suas minas de ouro. O discurso dele defendendo a importância da riqueza e do ouro é calhordamente similar a de qualquer livro de autoajuda que ensine o sujeito a enriquecer ou de um burocrata de uma multinacional. Pérolas assim: “A felicidade está no ouro, e nele reside a segurança e o êxito e felicidade da vida”. Por falar em autoajuda os diálogos do herói são igualmente hilários em certos momentos, principalmente quando reencontra a amada(“O amor é eterno”).
A trilha sonora de fundo das sequências finais está a cargo da banda Pink Floyd com o tema instrumental “One of These Days” do álbum Meddle(o da orelha). Claro, que Gilmour e Waters nem imaginam que ela foi utilizada em uma maluquice brasileira dos anos 80. Alex Prado teve carreira ativa como diretor até 1989 com 26 filmes lançados. Um herói do cinema popular nacional, assim como tantos outros que tiveram a ousadia de buscar um cinema simples e popular sem nenhuma benesse oficial da Embrafilme. A versão original que relembro aqui, e que tive o prazer de assistir, pode ser encontrada no blog cujo link está aqui: http://eugostodefilmesbrasileiros.blogspot.com.br/.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Nyl Blorong aka Snake Queen - 1982

Pois é, caro amigo, nesse momento depois de ter viajado a tantos lugares desse mundo que não para de rodar e nos deixa zonzos , giros e crazies, eis que estou na Indonésia. Sempre quis dar um pulinho aqui, andar pelas ruas iluminadas de Jacarta , visitar as mesquitas inumeráveis, infinitas, depois me quedar sossegado em um restaurante e provar os fantásticos acepipes da culinária local. Caminhar pelas ruas reserva outros prazeres: lindas mulheres que não cessam de dar uma espiada na aparência gringa do caminhante solitário. Na beira do rio paro e contemplo longamente os barcos de vários modelos e tamanhos. Sonho com as histórias de Terry e os Piratas, os filmes com Fred Mc Murray, Maria Montez, imagino que verei um espião se esgueirando nas sombras, piratas saindo com seus barcos para realizarem mais um ato selvagem e depois buscarem refúgio em uma ilha infestada de tigres e serpentes. A imagem de um oriente mágico, cinematográfico persiste em minha mente. Sonho em comprar um pequeno barco e me perder nas incontáveis ilhas que compõem este país singular exótico. Meu atento amigo, mas você sabe que aprecio o cinema, e quanto mais bizarro e louco melhor. E na falta de tempo de entrar em uma das salas de cinema da cidade - nenhum filme tinha legendas- comprei um DVD pirata de um filme nas mãos de um vendedor de rua. Ele me garantiu,num inglês mais atroz ainda que o meu, que o filme que eu comprei era incrível, extraordinário e tinha a vantagem de ser falado em inglês. Voltei para o hotel, cansado já das caminhadas, o suor escorrendo pelo rosto, e mesmo assim coloquei o filme no aparelho de DVD do quarto de hotel. Meu dileto amigo, você vez ou outra gosta de debochar da minha predileção por cinematografias ditas exóticas e já me ironizou nas bebedeiras noturnas nos botecos sobre resenhas que escrevi a respeito de filmes da Islândia, Turquia e outros países. Gosto de imaginar que, para um nativo de um desses países, nosso Brasil seja também exótico. Tudo enfim é questão de perspectiva, ter o olhar aberto para aceitar o que foge do trivial, que vá além dos cadernos de cultura chiques do Globo, Estadão ou Folha de São Paulo. O mundo é grande, disse um poeta. Nem sempre podemos fugir da tirania cinematográfica e cultural vinda do nosso Tio e Pai Sam, mas não custa combatê-lo silenciosamente, como aqui neste quarto de hotel numa rua de Jacarta, diante de uma pequena TV. Combate tolo e inútil, é verdade.
No momento em que começam a surgir no visor as imagens do filme, e percebo que a cópia é, sim, falada em inglês, mas tem subtítulos em grego e a qualidade de imagem é sofrível. Mas imagino que seja a única possível e continuo desperto na longa noite e me embrenho na história da Rainha das serpentes. O astro é Barry Prima que conheço de uma maluquice do mesmo país que assisti há tempos: “The Devil’s Sword”. O único filme que assistira feito no país. A atriz principal que atende pelo singular nome de Suzzanna, foi figura manjada por lá nas telas de cinema. No mesmo dia comprei também outro filme estrelado por ela: “The White Alligador Queen”. Claro que as novas gerações da Indonésia nem sabem quem ela é. Pelo menos para os funcionários do hotel com quem troquei algumas palavras, nenhum recordava quem era ela e esboçaram caretas de incredulidade, decerto pensando que estavam diante de um ocidental maluco e veado, que ao invés de estar ali abraçado com uma das milhares de putas que infestam os becos da cidade, simplesmente carregava alguns DVDs piratas e indagava sobre um velha atriz esquecida. Talvez tivessem razão no quesito loucura.O calor é infernal e o filme dirigido por Sisworo Gautama Putral vai ficando cada vez mais insano e surreal a medida que a trama se desdobra qual uma serpente deslizando na relva: Sexo, exorcismo, bruxaria, lutas, há um pouco de tudo que a máquina de sonhos oriental pode criar. As interpretações absolutamente distantes dos padrões ocidentais naturalistas: exageradas, caricatas e acentuam o grotesco deliberadamente. E o melhor, amigo, é que toda a trama excessiva tem um quê de uma velha lenda narrada ao pé do fogo, um mergulho no folclore do país. E daí o charme inquestionável do filme. E fico pensando, porque lá no nosso Brasil inzoneiro poucos cineastas tiveram a ousadia de se libertarem das amarras naturalistas e não apostam na poesia do insano das entranhas das narrativas ancestrais, como é aqui nesse filme e outros dessa exótica e distante Indonésia. Ai,amigo ,isso é só mais um sonho, entre tantos outros sonhos, cujo maior de todos é este aqui nesse quarto quente de uma Jacarta que só existe na minha imaginação e nas palavras que vou digitando a esmo. Aqui vai ,pois, um legítimo filme indonésio: você terá mais assunto para piadas no próximo encontro em algum boteco dessa cidade de calor digno de um Saara .

domingo, 9 de setembro de 2012

Abismos da Meia-Noite - 1984

Entre nossos defeitos culturais, como a falta de memória, assinalemos outro: o solene desprezo pela cultura vizinha dos países latino-americanos e igualmente para com a nossa pátria mãe Portugal. O intercâmbio é, praticamente, zero. Do cinema português só chegaram aqui os filmes do sisudo Manuel de Oliveira, na música Madredeus e Pedro Abrunhosa;e na literatura contemporânea o cenário é um pouco melhor, afinal eles tem Saramago. Ainda assim é pouco, no final das contas. O assunto do meu blog é cinema e então, realmente, é um cenário desolador. Esta resenha é um mea-culpa, pois nunca dei muita importância ao cinema luso e vi poucos filmes vindos de lá. Antonio de Macedo o diretor do filme que comento tem obra vasta, mas apenas três de seus filmes chegaram à internet. Uma pena. Além de cineasta é respeitado escritor de ficção e ensaísta. No meio desse ano a Cinemateca Portuguesa lhe dedicou uma retrospectiva. Surgido no cinema novo português a partir de 1975, no entanto ele escolheu um caminho singular e único abordando temas pelas perspectivas do fantástico e surreal com incursões por filmes de gênero como ficção científica e terror. É provavelmente o único que optou por esse rumo na cinematografia portuguesa.
Curiosamente o descobri justamente porque uma questão me veio à mente quando trocava algumas ideias com um amigo português, criador do excelente blog My One Thousand Movies, e lhe indaguei se em Portugal não havia acontecido, como em tantos países, uma linha de filmes exploitation, extremo ou erótico. E o nome indicado pelo amigo foi Antonio de Macedo, somente. Lá não houve esse tipo de cinema. Semelhante ao Brasil o cinema de gênero não encontrou respaldo junto ao público. O caminho do cineasta foi, portanto solitário e duro. Vários de seus filmes tiveram problemas com a censura, pelo que pude averiguar. Este que resenho foi o seu maior sucesso de público, muito em conta da nudez dos personagens principais em uma sequência: os dois atores, Helena Isabel e Rui Mendes eram figuras conhecidas na tevê portuguesa nos anos 80. O diretor declarou que o esoterismo é inseparável dos seus filmes. Aqui provavelmente mais que em outros dos seus filmes isso está claro. O subtítulo “As Fontes Mágicas de Gerénia” é uma boa indicação dessa questão. Esoterismo e Lendas medievais, ingredientes que dão vida a este filme. Irene, uma agente de seguros ,é designada a investigar o desaparecimento de um homem em uma pequena cidade do interior. Ao chegar conhece Ricardo, um modesto professor de história estudioso das lendas locais e vivendo um casamento infeliz. As investigações a levam a um beco de saída, onde a única explicação seria irreal e mágica: no decorrer Irene descobre que outras pessoas haviam desaparecido próximo aos muros do castelo medieval. Rezava a lenda que na noite de natal no momento das doze badaladas uma porta se abria e conduziria a um maravilhoso tesouro. O mergulho do casal é semelhante à Alice de Lewis Carroll: Fábula de iniciação, descoberta e aceitação do novo amor, mas poderia ser anti-iniciação ( um termo utilizado por Macedo em uma entrevista), pois se ambos mergulham em um mundo místico e esotérico, de lá apenas redescobrem o real. “Todos os meus filmes terminam com uma pergunta. No fundo o meu problema é essa pergunta”, declarou ele tentando esclarecer alguns pontos da sua filmografia que serviriam para elucidar o estranhamento que este filme causa no espectador. Iniciação que é um acrescentar, anti-iniciação que desvia. Esoterismo indagativo, interrogante. “E a minha preocupação nos meus filmes é bem perguntar”.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Os carrascos estão entre nós - 1968

O nome gringo do ator principal e diretor oculta, na verdade, um ator brasileiro: Cícero Adolpho Vitório da Costa, ou C.Adolpho Chadler. Como tantos nomes do nosso cinema esquecidos e lembrados apenas por alguns lunáticos(entre os quais eu me incluo). Foi mais um que ousou ainda na década de 60, em plena época do Cinema Novo e antes da era Boca do Lixo, fazer um cinema de gênero no país, e como outros antes e depois, fracassaria. Um precursor do Tony Vieira? De alguma maneira sim, e lembremos que só o cineasta de “Último Cão de Guerra” conseguiria sucesso de bilheteria na linha proposta por Adolpho,na década seguinte. O fato é que não havia nos anos sessenta interesse do mercado exibidor nem do público por essa linha. O sonho de criar um cinema de entretenimento renderia oito filmes até 1973 entre gêneros como terror, faroeste e policial. E como uma maldição quase todos eles estão perdidos. Este aqui em questão , com o sugestivo título de um filme perdido de Fritz Lang ,seria o terceiro da carreira do diretor/ator. Depois de 1973, o brasileiro gringo desapareceria do mapa do cinema e ao que tudo indica vive nos EUA. A história parte de um fato que se revelaria sinistramente real no futuro: a fuga para o nosso país de membros da cúpula do nazismo depois da guerra. Basta lembrar Mengele em no interior de São Paulo. Os remanescentes criaram uma organização secreta chamada Aranhas – novamente um nome languiano – que passa a ser investigada por dois agentes: Chadler interpreta Marcan, o brasileiro agente da nossa agência de inteligência SNI; o agente da CIA, interpretado pelo ator americano Larry Carr , de carreira obscura na terra natal, acabaria se fixando por aqui igualmente como coadjuvante em produções esquecidas. O roteiro é interessante garantindo as tradicionais reviravoltas na trama, imprescindíveis no gênero. Alguns bons diálogos e piadinhas visuais: na banca de revista um personagem folheia um livro do jornalista David Nasser sobre nazismo, por exemplo. As sequências de ação são bem feitas e críveis em sua maioria. E com tantos atrativos a questão é: por que o filme não fez sucesso? Um ponto grave a ser considerado, no meu entender: se o roteiro tem trama interessante, falha na construção de um bom protagonista, curiosamente o próprio Chadler, que faz um herói insosso e sem alma. Também o que esperar de um agente do SNI em plena época da ditadura? Mais antipático impossível. Na produção nomes ilustres do cinema nacional: Cyl Farney , Anselmo Duarte e Oswaldo Massaini. Neste último temos outra ligação do filme com a Boca, considerando-se que ele foi um dos principais produtores com a sua Cinedistri. Fotografia excelente, diga-se de passagem, do cinemanovista Affonso Viana. Trilha do maestro Erlon Chaves. No elenco Átila Iório e Karin Rodrigues, entre outros. O filme até que sobreviveu na memoria e nas telas apesar do fracasso na época: foi exibido no Cabal Brasil e pode ser comprado em colecionadores e vendedores de filmes raros facilmente encontráveis na rede. O cartaz do filme é outro fator que garantirá a imortalidade do filme junto aos cinéfilos e colecionadores de memorabilia do cinema nacional: foi o primeiro cartaz desenhado pelo grande ilustrador José Luiz Benício. E ficam as imagens em DVDs piratas ripadas do Canal Brasil, como restos da história do fracasso de um sonho.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Riot on Sunset Strip -1967

A AIP ganhou fama e dinheiro inundando os drive-ins com monstros, aliens, rebeldes teenagers e o que mais servisse para atrair público. Sam Katzman um dos pílares do filme B – apelidado de “King of the quickies” -e um dos meus produtores ídolos, com mais de 300 filmes no currículo, foi o responsável por essa pérola. A direção coube ao artesão B Arthur Dreyfuss: 54 filmes no currículo boa parte deles na mítica Monogram. O que temos aqui é um dos exemplares do subgênero hippie exploitation, surgido justamente no ano de 1967, sendo este talvez
o primeiro. A ficha técnica assinala a participação de hippies de verdade no elenco do filme dando um toque involuntário de humor. Os gêneros afins dos teenagers rebeldes e beats malucos já não atraíam como antes e os cabeludos foram alçados subitamente ao panteão dos monstros que apavoravam a tradicional família americana: os squares de terno e gravata e suas esposas louras dos subúrbios e seus filhinhos fofos e malas. Então o que tem o espectador é o velho combate entre as forças do bem, aqui representados pelos caretas, contra as forças insanas e demoníacas do mal travestidos nas figuras dos hippies. E olha que Charles Manson ainda demoraria alguns anos para mostrar que a paranoia tinha lá suas razões de ser. Não é improvável, aliás, que algum membro da trupe dele tenha aparecido nesse filme. Lembrando que o diretor enxertou cenas reais dos conflitos de rua que abalaram o período, o chamado Sunset Curfew Riot. A trama é embalada por uma trilha sonora sensacional a cargo dos obscuros grupos The Standells e Chocolate Watch Band . Ambas aparecem tocando ao longo do filme, e dão uma ideia de como era a cena californiana daqueles dias e de onde surgiriam The Doors, Jefferson Airplane, Grateful Dead e tantos outros grupos. Andy(Mimsy Farmer) filha de pais separados: a mãe uma bêbada ( Hortense Patra, esposa do produtor ) e o pai, ausente há 4 anos, o delegado responsável pelo patrulhamento na região de Sunset Boulevard durante os conflitos. Por ironia do destino é ele o encarregado de dar uma batida policial na festa de arromba e chegando lá encontra a filha chapada e nua na cama, depois de ser currada pelos hippies e beats doidões da sua turma.
Sexo, drogas e rock and roll . A sequência da festa antecipa de alguma maneira a insanidade de “Beyond the Valley of Dolls” de Russ Meyer. Já eram outros tempos.O recente livro lançado aqui no Brasil ”Popcorn” de Garry Mulholland que pretende listar os filmes básicos da história do rock, no ponto de vista dele naturalmente, o ignora solenemente. Os prefaciadores nacionais, um deles o Kid Vinil, também não o lembram. Foi justamente a leitura do livro que me despertou a curiosidade em assisti-lo, o que não deixa de ser irônico, considerando que, como eu disse, o filme é solenemente ignorado nele.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Morbus - 1983

Outra contribuição espanhola ao gênero de zumbis. Mas não é só: trata-se de um delírio estapafúrdio que nosso Ivan Cardoso, caso fosse espanhol, teria assinado com prazer, pois mais que um filme de terror puro estamos diante de um “terrir”. Humor e terror, e muito, muito sexo. Disse espanhol, mas para ser mais exato deveria dizer que a origem do filme é catalã. Não é de modo algum um filme para ser levado muito a sério. A narrativa é desconjuntada, titubeante, as interpretações são bisonhas em sua maior parte: suspeito que os zumbis estivessem participando da produção. No elenco nenhuma cara muito conhecida. Mas a estrela do filme, Carla Dey, teve alguma notoriedade na década de 80 em filmes eróticos. Retirou-se do cinema pouco depois desse filme e a última notícia da bela é que estava vendendo material farmacêutico. Para o deleite dos tarados ela passa boa parte do filme nua. Espanha e Brasil guardam algumas semelhanças cinematográficas. Ambos viveram um longo período sob ditaduras, no caso do país europeu até mais longa, e quase ao mesmo tempo se livraram delas com reflexos no cinema. Em 1976 Franco finalmente foi fazer companhia ao diabo e o país pode respirar ares melhores. A censura lá como cá era pesada, mas os militares permitiam obras eróticas; na Espanha o chamado “destape’, comédias inócuas, com alguma nudez, como a nossa pornochanchada. O fim da censura na Espanha permitiu que finalmente obras controvertidas fossem exibidas no país, exatamente o que ocorreria no Brasil igualmente. Para classificar esses filmes foi criada a classificação S” para filmes de terror, erotismo e políticos: “S” pela temática e conteúdo que poderiam ferir a sensibilidade do espectador , rezava a cartilha da censura. Ela acabaria se revelando uma maneira dos cineastas promoverem seus filmes na busca de atrair público. Qualquer filme era tachado como “S” e, por conseguinte, o público afluía na esperança de ver sexo e nudez. Mas da mesma maneira que a Boca do Lixo entrou em decadência a partir dos anos 80, com a liberação dos filmes pornográficos, este tipo de cinema “S” definharia com a invasão dos pornôs hardcore e a criação da classificação “X”. O filme que comento foi uma das últimas tentativas de apelar para a classificação “S”. Os diretores que não aderiram ao pornográfico resolveram mesclar o erótico a outros gêneros, caso, por exemplo, do terror, numa tentativa de sobrevida. Ainda comentando o paralelo entre este cinema “S” e a Boca do Lixo lembremos que as condições de produção eram semelhantes: filmagens rápidas, erotismo softcore, atores semidesconhecidos e precariedade. Daí que o filme aqui dirigido pelo diretor catalão Ignasi P. Ferré tenha essas características e lembre bastante nossas produções da Riua do triunfo. Curiosamente o roteiro levou a assinatura de um nome futuramente ilustre: Isabel Caitxe, hoje diretora premiada e de sólida carreira internacional.
Voltando ao diretor a biografia dele assinala que foi assistente de nomes como Antonioni, Tinto Brass e Marco Bellochio. É nesse contexto de decadência que surge este filme híbrido e bizarro. Um farmacêutico e cientista, meio maluco, inventa um soro que faz reviver os mortos e cria uma horda de zumbis. Corte para um trio de prostitutas, uma delas Anna (Carla Dey), ávida leitora, e que sonha em ser escritora, que é convidada juntamente com as amigas para um programa que parecia trivial. O cliente, um senhor esquisito leva as meninas para um bosque e pede apenas que elas leiam para ele a história de Branca de Neve. Sim, é isso mesmo que você, leitor, está lendo. O idílio de contos de fadas, porém, é interrompido por um ataque de zumbis e só nossa heroína sobrevive saindo em fuga (nua )desabalada pelo bosque, até cair desmaiada e acordar em um quarto desconhecido. Sorte dela que a casa pertencia a um antigo amante e que se revela um escritor de romances de terror, que, no entanto não acredita na história dela sobre ter sido atacada por zumbis. A ação salta, sem muita lógica, para uma seita satânica que se reúne em uma casa também no mesmo bosque. A cerimônia desanda para uma suruba que é interrompida por um ataque de zumbis. Os sobreviventes desse massacre acabam se refugiando na casa do escritor, que enfim, acredita que os zumbis existem. Qual a conclusão dessa zarzuela de zumbi doido ? Claro que não é uma obra prima, apenas um divertimento que o espectador que aprecie as tranqueiras vai ,com certeza adicionar , à coleção. Anexo um link : http://www.filecrop.com/Morbus-1983.html

domingo, 12 de agosto de 2012

Pets - 1974

Depois de um hiato sem publicar nada, não porque tenha deixado de assistir filmes, mas o caso é que alguns não me empolgaram, outros até gostei, mas não achei que se enquadrariam exatamente no perfil desse espaço. Sim, por incrível que pareça, depois de aproximadamente dois anos mantendo uma relativa regularidade na publicação de resenhas a sensação é que o blog acaba dominando o resenhista e, de alguma maneira, o obriga a seguir uma linha de filmes. Digamos que chiados e canudos adquiriu vida própria, fugiu ao meu controle e seleciona per si os filmes que ele deseja ver comentados. O filme que relembro aqui e assisti nessa tarde de sábado sossegada e fria é um desses casos onde meu Mr. Hyde sussurrou-me após o the end: este você terá que escrever e publicar! Só pude concordar e obedecer. Era um filme que estava aqui perdido numa penca de outros baixados no cinemageddon, creio, clamando para ser assistido. Como e por que ele veio parar no meu HD depois de demorar umas 3 horas até chegar ao notebook ? O tempo passa e acabamos por esquecer as razões pelas quais um filme foi buscado, baixado ou comprado. Já disse, não poucas vezes, que uma mulher bonita e sexy é um motivo decente –ou indecente – para se buscar e assistir a um filme. É o caso desse: a lourinha Candice Rialson fora o motivo pelo qual o filme aparecera . Tinha comentado há algum tempo o ótimo “Hollywood Boulevard”, estrelado por ela. Infelizmente ela faleceu jovem, em 2006, tendo atuado em 20 filmes, o último em 1979, quase todos no universo da exploitation e dai ser considerada uma das “rainhas dos drive-ins” pelos fãs. Ao que consta Quentin Tarantino era um desses e a homenageou no filme “Jackie Brown”, cujo personagem interpretado por Bridget Fonda teria sido inspirado nela. Mas deixemos de rodeios e vamos ao filme que foi o primeiro estrelado pela loura sapeca. Dirigido pelo alemão Raphael Nussbaum, baseado em uma peça off-Broadway escrita por Richard Reich, também coautor do roteiro. Candice Rialson é Bonnie, uma espécie de Cândido de Voltaire de minissaia, pícara e marota, transitando por uma América desglamourizada. Road movie sacana que, no entanto foge de alguns clichês da exploitation padrão dos anos 70. Há algo de terror, mas não diria que é um filme assustador. Há sexo, mas não é envolvente ou especialmente erótico.
Uma fábula satírica sobre a descoberta do mundo real? Nossa heroína é uma espécie de animal de estimação – daí o título (pets): vai passando de mão em mão - alheia e casual-, se deixando dominar psicológica e sexualmente pelos que a rodeiam. Uma artista plástica lésbica a leva para morar com ela e a mantem quase uma prisioneira, ao escapar vai buscar abrigo na casa de Victor (Ed Bishop) milionário esquisito e misterioso e, literalmente, torna-se um animal de estimação. Amante das artes que vivia isolado em um casarão, Victor é um ser saído de um filme de terror barato italiano dos anos 60. Divertido pensar que esse estereótipo nunca sai de cena e volta e meia dá as caras em filmes ou romances. No porão o ricaço mantinha uma bizarra coleção de animais de estimação fêmeas e nossa heroína é enjaulada e adicionada à ela . Nada divertido para as feministas ou os defensores do politicamente correto considerando-se que a mocinha parece aceitar de bom grado a prisão. E o discurso porco chauvinista de Victor é absurdo e hilário. Esse é um dos baratos desses pequenos e obscuros filmes exploitation dos anos 70: por trás da vulgaridade e do apelativo, havia fel, veneno e ironia. De resto, uma trilha interessante, com uma balada melancólica comentando a ação e dando às imagens aquele sabor americano setentista joia, como diria um hippie. Bons tempos. Caro chiados e canudos ,você não estaria exagerando no saudosismo? Caberia uma indagação: onde foi parar a cuca dos caras, ou melhor, onde foi parar a capacidade americana de produzir filmes assim insolentes, perversos e sacaninhas como este e outros daquela época? abaixo um torrent: http://kat.ph/pets-1974-dvdrip-chomp-cg-t5230197.html

terça-feira, 31 de julho de 2012

A Carne - 1975

Ao que consta foi a terceira adaptação da obra de Júlio Ribeiro. Não tive até o momento muito ânimo para ler o livro, pelo fato de não ter muita paciência com naturalismo literário. Comentar dessa maneira um filme adaptado de um livro tem até um lado bom, pois evitamos as comparações quase inevitáveis que poderiam ocorrer entre um e outro. É curiosa a observação sobre o filme, na wikipedia: o livro causou polêmica e escândalo nos tempos do império, o filme, no entanto, lançado no auge da pornochanchada passou despercebido. Os tempos eram outros. A Boca viveu em toda a sua trajetória, um conflito interno: havia a necessidade de atingir o povão, com o erotismo, mas por outro lado os produtores buscavam vez ou outra dar a algumas produções um verniz mais artístico, filmes voltados para um público seleto. Para isso uma das táticas era recorrer às adaptações de clássicos da literatura nacional, principalmente aquelas que já haviam caído em domínio público. Melhor ainda se a obra tivesse alguma aura de erotismo, e no caso do livro de Júlio Ribeiro, havia isso de sobra. Talvez seja o romance de mais alta carga erótica explícita da nossa literatura no séc. XIX. Só lembrando que José de Alencar e Macedo também tiveram obras adaptadas para as telas. O filme foi lançado dentro desse contexto de buscar um público mais sofisticado e a aceitação da crítica. Funcionava? Alfredo Sternheim , que adaptou “Lucíola” baseado em José de Alencar , lembrou em entrevista que a recepção ao seu filme foi negativa e de deboche da crítica. Não havia escapatória. Ou era paulada comendo solta ou então restava a indiferença e o desprezo. Coube ao que tudo indica essa sina ao filme de J. Marreco, considerando que quase nada se encontra sobre ele na net. “A Carne” se não tivesse nenhuma qualidade já valeria a pena somente pela presença deslumbrante de Selma Egrei. Mas felizmente o filme tem outras boas razões além da presença melancólica e sensual da atriz: um bom roteiro, escrito por Antônio Bivar e Antônio Calmon, a direção sensível do diretor J. Marreco, mineiro oriundo de Belo Horizonte, que fez carreira na Boca do Lixo exercendo várias funções, e a boa fotografia. Aos que supõem que os filmes da Boca são histericamente sexuais e calhordas - os velhos preconceitos de sempre- o filme impõe ao espectador uma narrativa calcada no intimismo e nas nuances, tingidos pela melancolia. Há uma preocupação com a verossimilhança histórica: o fim da escravidão e todos os dramas e estigmas decorrentes bem inseridos e rondando os senhores brancos, personagens da ação. Enquanto estes discutem e tentam fazer o sexo ( a carne), o elemento que move todos os gestos e passos dos personagens da casa grande, na senzala o chicote e o tronco falam a linguagem da dor na carne negra e desamparada. Lenita (Selma Egrei) uma jovem órfã, inteligente e culta (fato raro na época)que não tem outra opção na vida, após a morte do pai, que não seja se mudar para uma fazenda e passa a ter a companhia apenas do velho senhor. Solidão e isolamento. Havia um filho, mas sempre ausente. Esperança de amor, volúpias imaginárias. Decepção no primeiro encontro em uma cena memorável. Lenita se desespera ao constatar que o filho Augusto, era velho, esquisito e longe dos padrões imaginados por ela. Apesar do choque inicial ambos se aproximam e acabam se relacionando. O sexo , as taras, a libertinagem: “Sou moça, sou rica e quero gozar”; “Você foi a mulher mais devassa que já encontrei”. Ele é falado, discutido, mas o diretor opta pela suavidade e delicadeza, expondo o belo corpo de Selma Egrei em fugazes, mas belos, momentos. Tudo é sexo, mas a sensualidade carnal é um elemento ausente do filme, pelo menos da maneira que o público da época desejaria. Aos filmes saídos da Rua Triunfo só era permitido a truculência visual, técnica e a libidinagem . Aos que ousassem transpor essa fronteira, só restava o limbo e o esquecimento. Lenita, metáfora perfeita do cinema da Boca, não pode levar até as últimas consequências a paixão por Augusto, homem casado e cansado, e só lhe resta fugir e aceitar o jogo da sociedade. O filme ainda espera por uma edição decente em DVD, e pode ser encontrado na net numa cópia sofrível, mas é a única possível.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

La Morte Non Ha Sesso - 1968

Um detalhe que mesmo aqueles que os desprezam não podem negar: os gialli sempre têm bons títulos. E com esse não foi diferente: “A morte não tem sexo”. A versão americana ganhou um título, como sempre, pior: “A Black Veil for Lisa”. Não há dúvida que é um gênero de tramas e temas reduzidos: o obrigatório assassino que só se revela no final, sempre utilizando para os crimes uma tesoura ou quando muito uma faca, muitas mortes sangrentas, e tramas algumas vezes confusas, mas elegantes e de grande riqueza visual. Outros traços são inegavelmente atraentes : belas mulheres ,boas trilhas sonoras . Um detalhe que praticamente todos os giallos têm é a geografia onde as tramas se passam: apesar de dirigidos e realizados por italianos, as histórias geralmente são ambientadas em países estrangeiros. Boa parte na Inglaterra, sendo que este se passa em Hamburgo, na Alemanha. Nunca entendi bem esse aspecto inusitado do gênero. Massimo Dallamano foi cameramen experiente tendo trabalho em dezenas de produções italianas, mas só deixou 14 filmes como diretor. Este não chega a ser o seu filme mais badalado, o que é uma pena, acho que, inclusive, nem ganhou edição em DVD . Um filme, que guarda boas surpresas para o espectador e com razões suficientes que o tiram dos ,muitas vezes, estreitos limites impostos pelo gênero. A sequência inicial até dá a entender que veremos mais um giallo clássico: um homem andando por uma rua escura, é atacado e é assassinado a facadas por um assassino misterioso. Mas à medida que o filme avança ocorre um movimento do exterior – os crimes – para o interior – a mente do personagem principal: um policial de meia idade responsável pelas investigações. Já foi observado que a obsessão erótica seria o tema básico que permeia os melhores filmes do diretor. É só lembrar que Dallamano filmou, por exemplo, obras como “A Vênus das Peles” de Masoch - com a divina Laura Antonelli -, e “O Retrato de Dorian Gray” com Helmut Berger, dois clássicos literários da perversão.
Aqui é o ciúme que está no cerne do drama. A velha máxima de que o ciumento sempre acha mais do que procura se aplica perfeitamente à tragédia que se desenrola. Bulov (John Mills) se casou com uma mulher bem mais jovem, a bela Lisie ( a bond girl Luciana Paluzzi). Para complicar ainda mais eles se conheceram na delegacia: a moça fora condenada por tráfico. Ciúme, o Inferno do amor possessivo - o título de um filme que não recordo agora quem dirigiu - que se aplicaria bem aqui: a obsessão transtorna-o, não deixa a mulher em paz, seguindo-a e vigiando todos os passos dela. Na sua mente vai se desenrolando uma trama paralela de traições reais ou não. Nós, espectadores, somos deixados à deriva. A revelação da identidade do criminoso no meio do filme contraria umas leis do giallo e faz a trama tomar rumos inusitados: Bulov pede ao assassino, o bem apessoado Max (Robert Hoffman), que mate a esposa, diante da certeza da presumida traição. O problema é que Max e Lisie ao se conhecerem, ambos belos e jovens, caem nos braços um do outro e iniciam um affair, sob os olhos estupefatos e inebriados pelo ciúme do velho marido. Como pano de fundo desse triângulo amoroso temos o universo do tráfico de drogas: as mortes que ocorrem são todas relacionadas às investigações conduzidas pelo departamento de narcóticos e a suspeita é que um figurão playboy esteja por trás de tudo. As reviravoltas da narrativa são conduzidas com boa mão pelo diretor resultando em um bom exemplar do giallo.